Vários anos de seca severa estão a obrigar comunidades do sul de Angola, sobretudo da província do Cunene, a abandonar as suas zonas de residência em busca de água, alimentos e pastagens na vizinha Namíbia, segundo uma reportagem da Mongabay, publicada a 11 de Setembro de 2026.
A reportagem cita testemunhos recolhidos pela Amnistia Internacional, incluindo o de um residente do Cunene identificado pelo nome fictício de Nghikembua. Em 2021, o homem relatou que a falta de água e alimentos tinha provocado o despovoamento da sua aldeia, levando grande parte da população em idade activa a deslocar-se para a Namíbia.
Segundo a Mongabay, mais de 1,8 milhão de pessoas vivem no Cunene e cerca de 75% da população reside em zonas rurais, dependendo principalmente da criação de gado e da agricultura de subsistência.
A reportagem da Mongabay cita Victor Nyamori, investigador da Amnistia Internacional, segundo o qual o sul de Angola tem sido afectado durante vários anos por secas severas, calor extremo e degradação ambiental.
Essas condições têm deixado famílias sem água, culturas agrícolas e gado. Um relatório da Amnistia Internacional citado pela Mongabay estima que cerca de 30% da área analisada tenha sido degradada pela desertificação, afectando os meios de subsistência das comunidades rurais.
A situação agravou-se entre 2023 e 2024, quando um forte episódio de El Niño contribuiu para uma seca considerada entre as mais severas registadas na região em mais de um século.
De acordo com Nyamori, citado pela Mongabay, a Namíbia também sofreu os efeitos da seca, mas adoptou medidas de apoio alimentar e fornecimento de água, além de assistência aos criadores de gado e programas de protecção social.
Na sua avaliação, a resposta considerada insuficiente em Angola fez com que, para algumas comunidades, atravessar a fronteira se tornasse uma questão de sobrevivência.
A deslocação, porém, também expõe os angolanos a condições precárias e a riscos adicionais. Mulheres e crianças podem ficar mais vulneráveis à violência sexual e baseada no género e ao tráfico de pessoas, segundo o investigador citado na reportagem.
A Mongabay recorda que a mobilidade sazonal entre o sul de Angola e o norte da Namíbia possui raízes anteriores à criação das actuais fronteiras.
Nyamori explica que comunidades dos dois lados do rio Cunene partilham língua, modos de vida e, em alguns casos, laços familiares. Historicamente, essas populações atravessavam o rio durante períodos de seca em busca de água e pastagens.
O investigador defende que esse conhecimento tradicional poderia ser considerado nas respostas actuais às alterações climáticas, permitindo deslocações mais seguras das populações afectadas.
Actualmente, um acordo bilateral permite aos angolanos circular livremente na Namíbia numa faixa de até 60 quilómetros da fronteira.
A Amnistia Internacional defende, segundo a Mongabay, que o mecanismo seja tornado mais permanente, sobretudo perante os riscos de novas secas severas associados às alterações climáticas.
Para as comunidades do Cunene, a combinação entre seca, perda de gado, escassez de água e dificuldades económicas continua a aumentar a pressão para a deslocação temporária ou permanente para o território namibiano.
