Rui Verde aponta “fragilidade estrutural” na economia angolana para 2026

O jurista e analista político Rui Verde alertou para as fragilidades estruturais da economia angolana, defendendo que o país enfrenta, em 2026, um quadro económico aparentemente estável no curto prazo, mas profundamente vulnerável a médio prazo, sobretudo devido à dependência do petróleo, às tensões políticas e às limitações institucionais.

Numa análise sobre “As tensões actuais da economia de Angola”, Rui Verde sustenta que o crescimento económico previsto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), estimado em 2,3 por cento para 2026, representa uma desaceleração em relação aos 3,1 por cento registados em 2025, mantendo-se abaixo da média da África Subsaariana, calculada em 4,3 por cento.

Segundo o analista, o crescimento económico revela-se insuficiente para responder à forte pressão demográfica do país, recordando que Angola passou de cerca de 25,7 milhões de habitantes em 2014 para aproximadamente 37,8 milhões em 2024, com projecções que apontam para quase 40 milhões de habitantes em 2026.

De acordo com Rui Verde, esta dinâmica populacional exerce pressão crescente sobre os serviços públicos, infra-estruturas urbanas, sistema educativo e mercado de trabalho, agravando os riscos de aumento da pobreza e da exclusão social.

O especialista considera que o modelo económico angolano continua marcado por um “dualismo profundo”, caracterizado pela forte dependência do sector petrolífero, enquanto os sectores não petrolíferos permanecem incapazes de assumir o papel de motor do crescimento económico.

Apesar de reconhecer avanços pontuais na agricultura, telecomunicações e transportes, Rui Verde afirma que estes sectores continuam limitados pela baixa produtividade, insuficiência logística, elevados custos de financiamento e um ambiente de negócios marcado por incertezas e falta de previsibilidade.

Na análise, o autor refere igualmente que a redução do investimento estrangeiro no sector petrolífero, associada à saída progressiva de grandes operadores internacionais, representa um sinal de perda de confiança na economia angolana.

No domínio monetário, Rui Verde entende que a política restritiva do Banco Nacional de Angola tem contribuído para conter a inflação, mas à custa da redução da liquidez e do crédito à economia real.

O analista aponta ainda a permanência de Angola na lista cinzenta do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI) como um dos principais factores de bloqueio ao normal funcionamento do sistema financeiro, devido ao aumento dos custos de conformidade e à redução da confiança dos investidores estrangeiros.

A proximidade das eleições gerais de 2027 surge igualmente como um factor de risco político e económico, podendo influenciar negativamente o investimento directo estrangeiro e aumentar a instabilidade institucional.

Rui Verde considera que a polarização política entre o MPLA e a UNITA contribui para a percepção de incerteza, defendendo que apenas um processo eleitoral transparente poderá restaurar a confiança dos mercados e favorecer a estabilidade económica.

Na parte final da análise, o jurista critica os modelos económicos utilizados pelo FMI e pelo Executivo angolano, argumentando que estes não captam as especificidades históricas, institucionais e políticas do país.

Segundo Rui Verde, a economia angolana continua organizada em torno de uma lógica extractiva e dependente do Estado, marcada por fortes relações entre o poder político e os interesses económicos, o que dificulta o surgimento de um sector privado autónomo e competitivo.

O analista conclui que, sem mudanças profundas na forma de compreender e estruturar a economia nacional, Angola poderá continuar presa a um ciclo de crescimento insuficiente, fragilidade estrutural e instabilidade política.

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