A actual situação de estabilidade política e económica e o fraco acesso a saúde e educação de qualidade em Angola estão a levar muitos a emigrar para Portugal. O SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras informa que no ano de 2022 foram registados em Portugal mais de trinta e um mil angolanos, o que segundo o analista político e activista, José Gama, diz que o facto se deve às perspectivas económicas que o país enfrenta, os problemas no quadro do Estado Democrático de Direito que ainda não foi concretizado, é a oportunidade de desenvolvimento e educação, mas frisa que o angolano vai com a intenção de que as coisas em Angola melhorem para ele voltar.
Rádio Essencial (RE): Hoje, olhamos para a emigração para o exterior, com destaque para Portugal, segundo o SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras informa que só no ano passado, pelo menos mais de trinta e um mil angolanos foram registados em Portugal. Quais poderão ser as razões que ditam a saída de angolanos para o estrangeiro?
José Gama (JG): Bem, Angola apesar de ter já paz e estabilidade após décadas de guerra, enfrenta necessariamente problemas de estabilidade política e problemas económicos.
Primeira razão: as pessoas emigram devido a perspectivas económicas. Hoje temos os indicadores económicos do país com resultados preocupantes e também desafiadores que encorajam as pessoas a buscarem melhores perspectivas económicas e condições de vida, por este motivo algumas pessoas acham que é uma oportunidade de ir para outros países;
Segunda razão: é estabilidade política. Nós temos paz, mas o país ainda enfrenta problemas de democracia, ainda enfrenta problemas no quadro do estado de direito democrático que ainda não está implementado e as pessoas sentem também que há riscos de estar em Angola, desenvolver as suas atividades, e;
Terceira razão: é a oportunidade de desenvolvimento e educação. Há muitas as famílias, sobretudo jovens, que procuram uma educação de qualidade e oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional e, por sua vez, são incentivadas a partir para Portugal, onde se fala a mesma língua e onde o ensino é gratuito até ao 10.º ano. E a opção é entre estar em Angola com ensino cheio de problemas ou Portugal que é gratuito, os alunos também têm outras oportunidades para outras actividades extracurriculares, fazendo com que as pessoas optem por ir para Portugal.
Outro razão que também nos leva a ir muito a Portugal tem a ver com as ligações familiares históricas, a existência de laços familiares, de comunidades ou parentes que se encontram efectivamente em Portugal e a língua, sobretudo, que é um factor de união; isto também encoraja porque estando em Portugal os filhos vão maioritariamente logo para a escola, os casais que estão a emigrar também têm acesso imediato ao mercado de trabalho, não estão imediatamente mais envolvidos na aprendizagem da língua, têm uma cultura e uma gastronomia também ligadas à nossa, por isso esses fatores até incentivam as pessoas a emigrar, principalmente para a antiga metrópole.
RE: Já tivemos aqui o reconhecimento do director do INAGBE. Há que reconhecer que alguns bolseiros angolanos, quando vão para o estrangeiro, não pretendem regressar ao país. Isso pode ser um problema para a agenda do governo de atração de investimentos estrangeiros?
JG: Bom, muitos bolsistas quando vão para o exterior, optam por voltar e não ficar, porque existe aquela garantia de que quando voltarem ao país estarão empregados na instituição ou ministério que concedeu a bolsa e ou seja, é um aliciamento crucial que os impede de permanecer no país os acolhe para estudar.
Agora, quanto à questão dos investimentos, devemos lembrar que estamos numa situação em que ninguém investe em um país, com um sistema judicial cheio de problemas, como a corrupção.
O Presidente João Lourenço tem feito muitas viagens desde que chegou ao poder e não se vê produtividade em termos de atração de turismo de investimento, embora tenha se reunido com vários empresários, vários grupos mas, até agora, nada aconteceu. Basta fazer um paralelo com Lula que, em oito meses no poder, conseguiu arrecadar cerca de 88 bilhões de reais apenas neste curto período, número muito superior ao de seu antecessor no poder e também muito superior ao que o presidente João Lourenço teve nestes seis anos.
O presidente já esteve em vários países da China. Estamos a ver grandes grupos empresariais chineses em Angola. Ele já esteve nos Estados Unidos várias vezes. Até agora não vimos nenhum grande, houve uma iniciativa americana para apoiar o corredor do Lobito e outros projectos, mas mesmo assim os números ainda são irrisórios. Significa que precisamos de estudar e identificar o que está realmente a fazer com que os investidores estrangeiros se afastem de Angola.
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RE: Com que sentimento é que os angolanos saem do país?
