O Palácio milionário e o silêncio comprometedor da imprensa pública – Ilídio Manuel

​A comunicação social pública, que é sustentada pelo dinheiro dos contribuintes, exonerou-se das suas responsabilidades sociais, optando por um silêncio comprometedor, senão mesmo cúmplice, num assunto de interesse público.

​Na semana passada, a inauguração do Palácio das Convenções, um empreendimento que custou mais de trezentos milhões de dólares norte-americanos aos cofres do Estado, esteve no centro de polémicas, tendo gerado uma série de debates nas redes sociais e nas rádios privadas, já que tinha a ver com o dinheiro gasto num empreendimento de prioridade bastante discutível.

​A imprensa estatal fez o seu papel habitual de caixa de ressonância do poder, ou seja, mostrou o verniz e o brilho da obra, assim como destacou, para não variar, os feitos de JLo e da sua “visão estratégica” na promoção do que agora se convencionou chamar “turismo de negócios”.
​Esta nova modalidade de turismo surge depois do aparente fracasso da chamada “diplomacia económica”, por via da qual JLo viajou por tudo quanto é mundo em busca de investimentos.

​Os órgãos públicos de comunicação social não se deram ao trabalho de ouvir outras vozes, senão as que lhes interessou e que se pronunciaram ao lado do Executivo.

​Às vozes críticas, dentre as quais as dos partidos da oposição e da sociedade civil, que se pronunciaram contra a inversão de prioridades, não foi dado nenhum espaço para, provavelmente, não destoarem da “festa” de mais uma mega-obra, que alguns consideram um autêntico “elefante branco”.

​Os órgãos públicos não questionaram, em nenhum momento, por que razão não se procedeu ao concurso público para a adjudicação da referida obra, em vez do ajuste direto, uma modalidade contratual que não garante a transparência na execução das obras públicas.

​O maior partido da oposição, que juntou a sua voz às demais que se opuseram contra os elevados gastos das obras do novo Palácio, assim como a inversão das prioridades, foi pura e simplesmente “ignorado com sucesso”, como soe dizer-se.

​A UNITA disse que não era contra a execução de obras do género, mas criticou a inversão de prioridades que, na sua opinião, deveriam ser concentradas na execução de escolas e hospitais, tendo em conta os inúmeros défices que se registam nestes dois sectores.

​Se perseguissem o interesse público e apostassem num jornalismo comprometido com a verdade, a dita rádio que diz “unir o país” e a TPA teriam promovido debates em torno deste assunto.

​Ao optarem pelo silêncio neste assunto de interesse público, os órgãos de imprensa estatal não só revelaram a sua elevada subserviência ao poder político, como também se tornaram cúmplices das más opções governativas.

Por Ilídio Manuel

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