A comunicação social pública, que é sustentada pelo dinheiro dos contribuintes, exonerou-se das suas responsabilidades sociais, optando por um silêncio comprometedor, senão mesmo cúmplice, num assunto de interesse público.
Na semana passada, a inauguração do Palácio das Convenções, um empreendimento que custou mais de trezentos milhões de dólares norte-americanos aos cofres do Estado, esteve no centro de polémicas, tendo gerado uma série de debates nas redes sociais e nas rádios privadas, já que tinha a ver com o dinheiro gasto num empreendimento de prioridade bastante discutível.
A imprensa estatal fez o seu papel habitual de caixa de ressonância do poder, ou seja, mostrou o verniz e o brilho da obra, assim como destacou, para não variar, os feitos de JLo e da sua “visão estratégica” na promoção do que agora se convencionou chamar “turismo de negócios”.
Esta nova modalidade de turismo surge depois do aparente fracasso da chamada “diplomacia económica”, por via da qual JLo viajou por tudo quanto é mundo em busca de investimentos.
Os órgãos públicos de comunicação social não se deram ao trabalho de ouvir outras vozes, senão as que lhes interessou e que se pronunciaram ao lado do Executivo.
Às vozes críticas, dentre as quais as dos partidos da oposição e da sociedade civil, que se pronunciaram contra a inversão de prioridades, não foi dado nenhum espaço para, provavelmente, não destoarem da “festa” de mais uma mega-obra, que alguns consideram um autêntico “elefante branco”.
Os órgãos públicos não questionaram, em nenhum momento, por que razão não se procedeu ao concurso público para a adjudicação da referida obra, em vez do ajuste direto, uma modalidade contratual que não garante a transparência na execução das obras públicas.
O maior partido da oposição, que juntou a sua voz às demais que se opuseram contra os elevados gastos das obras do novo Palácio, assim como a inversão das prioridades, foi pura e simplesmente “ignorado com sucesso”, como soe dizer-se.
A UNITA disse que não era contra a execução de obras do género, mas criticou a inversão de prioridades que, na sua opinião, deveriam ser concentradas na execução de escolas e hospitais, tendo em conta os inúmeros défices que se registam nestes dois sectores.
Se perseguissem o interesse público e apostassem num jornalismo comprometido com a verdade, a dita rádio que diz “unir o país” e a TPA teriam promovido debates em torno deste assunto.
Ao optarem pelo silêncio neste assunto de interesse público, os órgãos de imprensa estatal não só revelaram a sua elevada subserviência ao poder político, como também se tornaram cúmplices das más opções governativas.
Por Ilídio Manuel
