O caso das ambulâncias sucateadas – Kamalata Numa

A imagem de dezenas de ambulâncias imobilizadas, degradadas e transformadas em sucata em parques públicos constitui um dos retratos mais eloquentes da crise de gestão do Estado angolano. Não se trata apenas de veículos avariados. Trata-se de recursos públicos adquiridos com o dinheiro dos contribuintes, destinados a salvar vidas, que acabaram abandonados pela incapacidade administrativa, pela ausência de uma cultura de manutenção e pela falta de uma visão estratégica sobre o património público.
Quando uma ambulância deixa de funcionar, não é apenas uma máquina que pára. É um serviço de emergência que desaparece. É uma mulher grávida que poderá não chegar ao hospital a tempo. É uma criança que poderá não receber assistência urgente. É um acidentado que poderá perder a vida por falta de transporte adequado. Cada ambulância sucateada representa uma oportunidade perdida de proteger a vida humana.
O caso denunciado pelo Presidente do MEA não deve, por isso, ser interpretado como um episódio isolado. Ele revela um problema estrutural que se repete em praticamente todos os sectores da Administração Pública. Em Angola, assiste-se frequentemente à aquisição de equipamentos sem que exista um sistema eficiente de manutenção preventiva, recuperação técnica, gestão de peças sobressalentes, formação de mecânicos especializados e responsabilização institucional pela conservação dos bens públicos.
Esta realidade demonstra que o verdadeiro problema não reside apenas na compra de equipamentos, mas na incapacidade de assegurar todo o seu ciclo de vida. Governar não é apenas adquirir património; é preservá-lo, valorizá-lo e colocá-lo permanentemente ao serviço dos cidadãos.
A história demonstra, contudo, que existem alternativas. Durante a luta de libertação, no Líkwa, centro logístico da UNITA sob Direcção do General Bock, desenvolveu-se uma cultura de aproveitamento racional dos recursos. Os camiões capturados ou avariados eram recuperados, transformados e adaptados às necessidades operacionais. Quando necessário, eram integrados motores provenientes da África do Sul, prolongando significativamente a vida útil dos veículos. O objectivo não era apenas reparar máquinas, mas construir autonomia logística e reduzir a dependência externa.
Essa experiência demonstra um princípio universal da engenharia reversa e da administração: o valor de um equipamento não termina quando surge uma avaria; começa precisamente na capacidade técnica de o recuperar.
É significativo recordar que, no Líkwa, não existiam cemitérios de sucata. Existiam uma indústria de fabrico de peças sobressalentes e oficinas de manutenção, criatividade, engenho e profissionais dedicados à recuperação do material disponível. Essa cultura de eficiência transformava limitações em oportunidades e escassez em capacidade produtiva.
É precisamente essa filosofia que Angola necessita de recuperar.
É essa filosofia que Adalberto Costa Júnior projecta apresentar aos angolanos em 2027; a cultura governativa da competência contra o desperdício.
O país precisa de substituir a cultura do abandono pela cultura da manutenção; a cultura do desperdício pela cultura da recuperação; a dependência permanente da importação pela valorização da inteligência técnica dos próprios angolanos.
Neste contexto, ganha particular relevância a perspectiva de uma política nacional orientada para o desenvolvimento de centros especializados de manutenção, reconstrução e modernização de equipamentos públicos. Uma estratégia desta natureza permitiria reduzir custos, aumentar a disponibilidade operacional de ambulâncias, autocarros, tractores, viaturas administrativas, máquinas agrícolas e outros equipamentos essenciais ao desenvolvimento nacional.
Mais do que uma simples actividade de reparação, esta política poderia constituir um poderoso instrumento de industrialização. Oficinas modernas poderiam evoluir para pequenas e médias indústrias de fabrico de componentes, recondicionamento de motores, metalomecânica, electrónica automóvel e formação técnico-profissional, criando milhares de empregos qualificados para a juventude angolana.
É neste quadro que o anúncio do Pacto Nacional de Estabilidade, promovido pelo Presidente da UNITA e Coordenador da FPU, em conjunto com cidadãos da sociedade civil, poderá abrir espaço para uma nova abordagem da gestão pública, assente na eficiência, na responsabilidade, na transparência e na valorização do capital humano nacional. Independentemente do debate político, a ideia central merece reflexão: um Estado moderno deve ser capaz de conservar, recuperar e rentabilizar os recursos que pertencem ao povo.
Nenhum país alcança o desenvolvimento sustentável quando transforma sistematicamente o património público em sucata. Os países que hoje lideram a economia mundial construíram sistemas rigorosos de manutenção, inovação tecnológica, reciclagem industrial e qualificação permanente da sua mão-de-obra.
O caso das ambulâncias sucateadas deve, portanto, ser encarado como um alerta nacional. Não basta denunciar o desperdício; é necessário construir uma nova cultura administrativa, baseada no planeamento, na manutenção preventiva, na responsabilidade dos gestores públicos e na capacidade técnica das instituições.
A verdadeira riqueza de Angola não reside apenas no petróleo, nos diamantes ou nos seus recursos minerais. Reside, acima de tudo, na inteligência, na criatividade e na capacidade de trabalho do seu povo. Quando essas capacidades forem colocadas ao serviço de uma administração competente, o país deixará de acumular parques de sucata para construir parques industriais, centros tecnológicos e oficinas de inovação.
Angola precisa de um Estado que cuide do que pertence aos angolanos. Um Estado que considere cada ambulância operacional como uma vida potencialmente salva, cada máquina recuperada como riqueza preservada e cada técnico formado como um investimento estratégico no futuro nacional.
A incompetência administrativa não deve ser aceite como uma fatalidade. É um problema que pode e deve ser vencido através da boa governação, da profissionalização da Administração Pública, da responsabilização dos gestores e da valorização da competência técnica.
Só assim Angola poderá substituir a cultura do desperdício pela cultura da eficiência, da inovação e do desenvolvimento sustentável.
Viva Angola!
OBRIGADO
Por Kamalata Numa

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