O jurista e especialista em sistemas eleitorais Luís Jimbo alertou, em artigo de opinião publicada nas redes sociais, para os riscos que a utilização de linguagem de “extinção” no debate político parlamentar representa para a reconciliação nacional e para a memória colectiva da guerra em Angola.
Reconhecendo o pedido de desculpas apresentado pelo deputado em causa como um acto que se regista, Jimbo sublinha que, num Estado democrático, as palavras de um representante público não são neutras — carregam peso político, histórico e institucional que não pode ser ignorado.
O autor recorda que Angola é uma nação forjada na diversidade de identidades, etnias, raças e crenças, mas também marcada por um passivo histórico de conflitos armados antes e após a independência, incluindo as guerras que se seguiram à instauração do multipartidarismo. Nesses conflitos, cujo único sujeito e protagonista foi o próprio povo angolano, famílias inteiras foram divididas pelas ideologias do MPLA e da UNITA.
“Falar em extinção pela guerra de um contra o outro não é apenas retórica política, é um retrocesso perigoso para a cura das feridas das famílias angolanas que viveram e sofreram a guerra, e cuja dor ainda pesa”, escreve Jimbo, questionando a quem se dirige afinal essa linguagem — se à ideologia do adversário político ou ao próprio irmão angolano.
O jurista considera que introduzir termos desta natureza no debate parlamentar, em pleno contexto de democracia multipartidária, equivale a reabrir feridas que o Estado angolano tem procurado sarar através de iniciativas de reconciliação, entre as quais a Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), a homenagem aos signatários dos Acordos de Alvor nos 50 anos da independência, o Memorial da Batalha do Cuito Cuanavale e outros programas de construção de uma memória colectiva de patriotismo e progresso, 24 anos após o fim da guerra.
“Não podemos ter dois discursos: um institucional de paz e outro político de eliminação. Isso enfraquece a democracia e banaliza a memória colectiva da guerra”, afirma o especialista, exigindo aos políticos responsabilidade, maturidade e coerência no compromisso com a paz e a unidade nacional.
Jimbo conclui o seu texto evocando as palavras do Papa Leão XIV dirigidas a Angola, segundo as quais a forma mais adequada de enfrentar o conflito é aceitar suportá-lo, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo — concluindo com a bem-aventurança dos pacificadores como referência ética para o momento político que o país atravessa.
