General Kiamuxinda: “A guerra não foi só contra os Portugueses, mas também dentro do MPLA”

Carlos Belo, mais conhecido por Kiamuxinda, partilhou detalhes sobre a sua infância e sobre os momentos marcantes da luta pela independência de Angola, numa entrevista com o jornalista Nguxi dos Santos, realizada no dia 16 de Janeiro de 2025. Natural de N’Dalatando, Kwanza Norte, onde nasceu a 12 de Abril de 1947, Kiamuxinda falou sobre a fuga para as matas em 1963 e o seu papel na luta contra o exército português, além de outras histórias. Confira a entrevista abaixo:

Nguxi dos Santos (NS): O que aconteceu em 1963?

Carlos Belo (CB): Saí do Kwanza Norte para Luanda, depois de um breve período em Malanje, devido aos eventos em Ndalatando que resultaram no assassinato do meu pai, o que foi muito doloroso, pois eu era o seu “conduéle”, ou seja, onde ele ia, eu ia. Ele foi morto em 1961.

Em 1962, minha mãe sugeriu que eu fosse para Luanda e morasse com meus primos. Ao chegar, meu primo João Álvaro me arranjou trabalho na oficina da Aeronáutica Civil, com o mestre Sebastião Álvaro dos Santos e o Sr. Matateu, de Catete.

Certa segunda-feira, cheguei atrasado e o engenheiro responsável me perguntou: “São horas para você chegar?” Respondi que não, que estava apenas 15 minutos atrasado. Ele tentou me dar uma chapada, mas, quando tentou a segunda, segurei-lhe os colarinhos, dei-lhe uma cabeçada e dois dentes caíram. Fugi para o Sambizanga, onde era meu refúgio. Meu primo Sebastião e o mestre Matateu foram presos. Passei duas semanas no Sambizanga até ser apresentado a Domingos Mateus Candondo, que levava pessoas para as matas.

NS: Quando ocorreu a fuga para as matas e a luta pela Independência?

CB: Em dezembro de 1963, estive no Sambizanga durante duas semanas, depois voltei ao Kassenda à procura de amigos, como o Paulo Pascoal da Silva e o João Domingos, sendo o João de Malanje e o Paulo do Gulungo Alto. No dia 13, às 17 horas, partimos do campo do Académico para Caxito, no Sassa. Apanhamos o autocarro e, ao chegar lá, dormimos na fazenda de cana, atravessámos a estrada para o Ambriz e encontramos o homem que nos estava à espera.

Apresentámo-nos, o Mateus voltou e nós continuámos. Atravessámos o rio Onzo e encontramos outro grupo. Durante três dias, chegámos à base de Quicabo, onde fomos recebidos pelo comandante Miranda Paulo da Silva. Contudo, um membro do grupo pediu para irmos para Brazzaville. Não sabíamos das divergências entre a UPA e o MPLA, e as nossas coisas foram todas confiscadas. Como estava inconformado, tentaram amarrar-me para me fuzilarem, mas não poderiam fazê-lo sem a presença do comandante Sebastião Júnior, de Caxito, que, ao chegar, impediu o fuzilamento e determinou que fôssemos trabalhar na mesma zona.

Ficámos a trabalhar na região: o Paulo foi colocado no armamento, o João como sapateiro e eu como secretário. Esperámos duas semanas pelo comandante da FNLA, o Capitão Margoso, que, ao chegar, decidiu que fôssemos para o comando operacional de Angola (COA). Após algum tempo, o camarada Margoso foi chamado ao Zaire e ficámos sob o comando do adjunto Domingos Miguel Nzambi Nzumbo durante um ano.

Mais tarde, o Sr. Domingos César Quissanga, de Malanje, apareceu para fazer o reconhecimento da barragem das Mabubas e pediu que o acompanhasse para fazer o relatório da viagem. Durante os 13 dias da viagem, conheci o camarada Belino no Kinkuso, que, ao ver o relatório, me convidou para trabalhar com ele. Fui enviado para Franguete e depois para o bureau da UPA em Kinshasa.

No bureau da UPA, conheci o camarada Domingos José, de Malanje, que me levou para a sua casa. Lá, encontrei oficiais da UPA e do MPLA, como o Janota e o Santos, e passei por várias situações complicadas, incluindo ser preso durante 45 dias. Nesse período, conheci Holden Roberto, que me perguntou sobre as minhas intenções em Brazzaville. Expliquei-lhe que só conhecia a UPA, e ele falou-me sobre o MPLA e os seus recursos. Eventualmente, fui transferido para o MPLA, depois de ser contactado por Miranda Marcolino.

Fui então levado, junto com outros camaradas, até Kimpansa, e de lá atravessámos o rio Zaire às 17 horas para evitar as patrulhas zairenses. Chegámos a Brazzaville, onde fomos recebidos pelo Lúcio Lara e, no dia seguinte, treinados pelo General Monimambo. Depois de duas semanas, fui transferido para Dolisie, onde permaneci por algum tempo. Em 1972, devido à minha actividade, fui enviado para o Sudão, com 51 camaradas, para um treino de infantaria e comandos.

O Presidente Agostinho Neto visitou-nos duas vezes, levando José Eduardo dos Santos para treinar connosco. Após 18 meses de treino, o nosso curso foi encerrado pelo Presidente do Sudão, Nimeiry. Depois, regressámos a Brazzaville.

NS: Quantos elementos eram?

CB: Éramos 51, sendo 49 guerrilheiros e 2 comandantes, que não treinaram. Quando chegámos a Brazzaville, o camarada Presidente pediu ao Presidente Ngouabi para passarmos a noite no Quartel dos Comandos. Fomos para lá, mas, devido à nossa postura agressiva, acabámos por afastar os outros. O comandante Monstro Imortal avisou o camarada Presidente, que informou o Presidente Ngouabi. Prepararam os carros e, por volta das 20/21 horas, partimos para a Província de Dolisie, com o camarada Kianda a liderar a coluna de camiões. Chegámos ao Cir Kalunga, montámos as tendas e aguardámos a chegada do comandante Ndozy, Monstro Imortal e Delfim do Castro para nos apresentarem ao comando.

Após algum tempo, o comandante Marcos nos deu uma missão na mata do Maiombe, numa montanha onde os portugueses faziam incursões. Minámos a área e, no dia seguinte, a missão foi bem-sucedida: houve uma explosão que matou 15 militares portugueses e feriu vários outros. Os portugueses disseram na rádio que o MPLA estava a cometer crimes contra a humanidade.

Voltámos ao CIR Kalunga, onde apresentámos a missão ao comandante Pedalé. O camarada António Jacinto liderava o centro e lá ficámos enquanto davam formação a milhares de jovens que chegaram de Luanda e de outras partes do país. Entre eles estavam João Lourenço, Nandó, Bornito de Sousa, Mário António, Lólo Quitumba, Kipakassa e muitos outros. Alguns formaram famílias ali, como Abiud, Zwela, Divua e Gy.

A chegada dessa juventude mudou tudo. No início, éramos menos de 200 guerrilheiros, mas com o tempo tornámo-nos batalhões de instrutores. Além da formação, também participámos em combates, como no quartel de Miconge e na Sanga Planície, onde resgatámos três militares portugueses.

Depois da conferência inter-regional em Lusaca, o camarada Presidente Neto ordenou a nossa transferência do CIR Kalunga para o Binheco, no interior de Cabinda. Comandámos a movimentação e continuámos os combates. Mais tarde, o comandante Nzaje, chefe da segurança, encarregou-nos de uma missão no Sanda Massala, onde estava o quartel dos TE’s.

NS: Os TE’s serviam o exército português? Eram pretos?

CB: Sim, os TE’s eram Cabindianos e serviam o exército português. O General Foguetão e eu fomos nomeados para ir lá, e o camarada Nzaje ficou no posto de comando. Fomos até Sanda Massala para falar com o soba. De repente, apareceu um velho com um prato, fez-nos um sinal sem falar e indicou-nos para sair, porque os Tugas estavam perto. Calculamos que os Tugas estavam a chegar, então saímos para a mata e, pouco depois, eles chegaram.

Quando os Tugas perguntaram se tínhamos visto algum terrorista, respondemos que não. Depois de nos despedirmos do velho e informarmos o comandante Nzaje, o Foguetão organizou a tropa para uma emboscada. Nessa emboscada, resgatámos um camarada que mais tarde foi Ministro dos Petróleos. Depois da missão, voltámos ao posto e continuámos com os combates.

Mais tarde, fomos fazer um reconhecimento para atacar o quartel dos TE’s com o Foguetão, mas ele decidiu chamar o comandante Max Merengue. Quando ele chegou, Foguetão decidiu enviar-me a uma loja de um português chamado Manuel para pegar comida, que depois distribuímos à população.

Fomos depois ao quartel dos TE’s, onde o comandante disse que já não tinha qualquer ligação com os portugueses e queria juntar-se ao MPLA. Foguetão agradeceu e retirou-se. O comandante Max Merengue foi depois a Cabinda, onde ameaçou um capitão português, o que levou a uma repreensão por parte do Presidente Neto.

Em 1974, depois da orientação do comandante Ndozi, fomos para Luanda para preparar a chegada do Presidente Neto. No dia 3 de Dezembro de 1974, chegámos a Luanda e fomos designados para fazer a segurança da delegação na Vila Alice. Outros camaradas foram enviados para a província do Zaire, Huambo e Mussenga.

NS: Admira-me que, já em 1973, vocês podiam entrar em Cabinda como guerrilheiros? E o exército português não reagia?

CB: Em 1974, já andávamos fardados em Cabinda. No jogo de futebol de 1974, todos nós estávamos fardados.

NS: Como é que foi a fuga da UPA do General Margoso?

CB: O General Margoso fugiu da UPA depois do massacre de 36 oficiais na base de Kinkuso, que aconteceu em 1973. Ele e o falecido Nguanda, o mais velho, fugiram e foram direito a Brazzaville. Em Brazzaville, apresentaram-se e foram encaminhados para a OUA, para dar informações sobre a verdadeira situação da UPA/FNLA. Quando voltaram, foram direto para o CIR Calunga.

Foram enquadrados lá, e eu ainda fiz alguns combates com o comandante Margoso contra os Tugas. O Nguanda ficou em Brazzaville, mas como o Margoso sempre foi um homem aguerrido, ele foi para o CIR Calunga para estar connosco.

NS: Antes dessa missão de virem para Luanda, houve a revolta activa e a revolta do Leste?

CB: A primeira revolta foi mesmo em Brazzaville, não foi a revolta do Leste. A revolta activa, quando foi criada, aconteceu na conferência da base Esperança. Foi lá que, quando o camarada Presidente Neto orientou para que todos fossem para o interior de Cabinda, começaram os problemas. E peço desculpa, não é para ser racista, mas os mulatos não queriam entrar na mata, então se criou a revolta activa. Estavam lá o Meneses e outros, como um camarada que trabalhava na Petrangol. Eram muitos camaradas envolvidos.

Criaram a revolta activa, e ouviam que nós, como tínhamos muita audiência com os instruendos, podíamos influenciá-los para não participarem nos combates. Nós dissemos que não, que a área era deles, que foram eles que criaram essa situação.

NS: E quem eram esses mulatos na revolta activa?

CB: Epá! Os nomes já me escaparam. Só lembro de um, que até era meu primo, o Meneses, e outro que trabalhava na Petrangol.

Mas quando vocês foram nomeados para vir para Luanda, a maioria dos guerrilheiros estava com a revolta activa?
Não, não estavam com a revolta activa. Alguns estavam, e até tentaram nos aliciar para que aderíssemos à revolta activa, mas nós dissemos que não. O nosso objectivo no MPLA não era a revolta activa. Se vocês não querem ir para a mata, o problema é de vocês, até porque o António Jacinto questionou essa questão. O António Jacinto, que era mais velho, e aquele branco dos quadros também foram contra. O António Jacinto disse: “Camaradas, se vocês têm problemas por serem mulatos e não podem ir para a mata, isso é problema de vocês. Nós viemos aqui para combater, não viemos para que só os negros fossem para a mata enquanto vocês ficam na cidade.”

NS: Foi aí que começaram a surgir os problemas raciais no MPLA?

CB: Sim! Começaram a surgir problemas raciais no MPLA. A revolta activa estava sediada em Ponta Negra, onde eles estavam. Uma vez, fomos convidados, eu e o Yamussinde, para ir a Ponta Negra para ver se nos convenciam a aderir a eles. Fomos lá, prepararam um almoço, comemos, bebemos, e no final dissemos: “Não! Muito obrigado, mas para nós isso aqui não vai dar!” E voltamos para Brazzaville. Chegamos e informamos ao camarada Pedalé e ao camarada Ndozi.

NS: Estamos em 03 de Dezembro de 1974. Fomos seleccionados, com 11 militares, para a recepção do Presidente Agostinho Neto em Luanda. Como foi essa experiência?

CB: Fomos seleccionados para ir a Luanda. Fomos bem recebidos, e depois houve a distribuição do pessoal para os Centros de Instrução. Eu, o falecido comandante Valódia, e o falecido Pitoco fomos para o Centro de Instrução de Hoji Ya Henda, onde identificamos a área. Fiquei lá com o falecido Bandeira, Marília, Hangar, e o general falecido Petit.

Mas depois, eu estava sempre em stand by, sendo pressionado pelo comandante Nzaji, que não queria me deixar sair do órgão, o DIS.

NS: Como você foi para a segurança?

CB: Eu fui para a segurança porque o Ndozi… Eu pertencia ao DIS desde Brazzaville. Quando chegamos em Luanda, o camarada Nzaji disse-me que poderia fazer outras actividades, mas não poderia me afastar. Ele mandou-me arranjar uma casa grande na Kamuxiba. Apresentei a casa ao comandante Nzaji, e então chegaram os cubanos. Quando os cubanos chegaram, ficaram em Kamuxiba. A constituição desse grupo especial foi para acolher clandestinamente os cubanos e realizar missões especiais. A escolha de Kamuxiba deveu-se ao acesso ao mar, para embarque, desembarque e movimentação clandestina dos cubanos, e até nossa.

Os cubanos, quando quisessem sair, só saíam comigo. Eles não falavam português, só espanhol, e andávamos pela cidade.

NS: Lembram-se de quais cubanos estavam lá?

CB: O único nome que lembro é o Arguelles, que era o comandante.

NS: Quais eram as vossas áreas de acção na altura?

CB: A área de acção era única: Kifangondo. Eu sempre digo: se nós não tivéssemos o BM-21 naquela altura, a FNLA teria entrado. Sem o BM-21, a FNLA teria avançado. Além do BM-21, o nosso grupo já tinha destruído duas pontes, a ponte do rio Zenza e outra abaixo do rio Zenza, no Terreiro, para impedir o avanço da FNLA para Luanda. Essas pontes retardaram a progressão rápida da FNLA, permitindo a organização e a chegada dos cubanos, que inicialmente ficaram na Kamuxiba, e a criação de todas as condições para o desfecho da batalha de Kifangondo. Sem essas duas pontes? Essas pontes foram fundamentais, e pouco se fala sobre elas. Nessas acções, contávamos com o apoio do CIR Hoji Ya Henda, e lembro de um miúdo muito activo, o Staline.

NS: Quem foi o responsável por destruir as pontes?

CB: Nós não estávamos ligados à 9ª Brigada. Fui chamado pelo chefe do Estado-Maior e pelo Iko Carreira para criar um grupo de sapadores, composto por mim, Luisinho, Rosa Lopes e outros camaradas. Começamos a trabalhar porque sabíamos que a FNLA teria que passar de carro. Partimos a ponte no rio Zenza, no caminho para Caxito, e outra no Terreiro, abaixo do rio Zenza. Foram acções espectaculares. O inimigo já controlava as pontes, e uma das pontes foi destruída à noite, e a outra de dia. Infiltramo-nos nas linhas inimigas.

NS: Dá-se a Independência em 1975. Onde foi colocado?

CB: Após a Independência, continuei a minha função. Em 1976, fui nomeado para ir à Rússia fazer um curso de tanques T-55. Ficamos lá por dois anos. Quando regressei, os outros receberam férias, mas a mim não conseguiram dar férias. O chefe do Estado-Maior, Xietu, me chamou e disse: “O camarada Agostinho Neto precisa falar contigo.” Fui até lá. O próprio chefe do Estado-Maior me deixou com o Dr. António Agostinho Neto. Ele me disse: “Chamei-te, porque você vai cumprir uma missão difícil. Mas sei que não será difícil. Você será o comandante do Plano Ferro, entre o Lobito e a fronteira do Luau.” Eu questionei: “Camarada Presidente, sou só capitão, existem maiores e outros acima de mim.” Ele me respondeu: “Quem é o comandante-em-chefe? É o chefe. Estou te nomeando como capitão porque confio em ti. Você vai criar condições para ter tropa.” Aceitei, e no dia seguinte me deram uma avioneta que me levou até Lobito. Lá, a Direcção do caminho de ferro me deu um Land-Rover para buscar oficiais no CIR Sangue do Povo, na Gabela, onde fui buscar o Antas e outros. Eram 2ºs tenentes. Assim, começamos a criar condições para garantir a segurança da linha férrea.

NS: Você sempre teve reuniões com o Ministro da Defesa e outros responsáveis?

CB: O camarada Iko Carreira, embora fosse mais novo, era meu amigo. Eu, quando estava no Plano Ferro, preferia fazer despachos com o Iko Carreira do que com o chefe Xietu. Sempre tínhamos reuniões com o camarada Iko Carreira e também com o falecido Nzaji, a quem informava sobre o que estávamos fazendo ou deixando de fazer.

NS: Fale sobre o roubo de material de guerra do exército português.

CB: Por volta de julho de 1975, recebi uma missão difícil dos camaradas Xietu e Iko Carreira: roubar armamento do exército português para dar às populações, que estavam a ser massacradas pela FNLA.

Falei com o meu grupo da Kamuxiba, onde havia brancos, mulatos e negros. Os brancos andavam fardados como militares portugueses, com patentes de alferes e capitão, para facilitar a infiltração. Primeiro, tiramos seis camiões da Marinha e cinco do Grafanil. Depois, fui chamado para mais uma missão no ASMA. Conseguimos quatro camiões, carregando 375 armas, mas fomos cercados. Ordenaram que descarregássemos tudo e levaram-nos para um armazém.

Os tugas identificaram-me como chefe e tentaram arrancar informações. Levei umas coronhadas, mas não cedi. Fomos levados para a Casa da Reclusão, onde estavam outros camaradas como Amílcar Figueiredo e Lago de Carvalho. Começaram a dar porrada, mas eu enfrentei um sargento e deixei claro: a nossa missão era armar o povo contra os massacres da FNLA.

Enquanto estávamos presos, três camaradas fugiram e foram avisar o mais velho Xietu, que comunicou ao camarada Iko Carreira e ao Presidente Neto. Neto intercedeu junto ao Alto Comissário Rosa Coutinho, que ordenou a nossa transferência para a escola Gica, enquanto os brancos e mulatos foram levados ao R-20 por questões raciais. Para evitar que eu fosse transferido para Portugal, Iko Carreira deslocou-se a Lisboa e negociou com o ministro da defesa português. No regresso, mandaram o ministro da Justiça, Diógenes Boavida, tirar-nos da prisão.

O roubo do armamento foi crucial para o MPLA naquela altura. Retiramos a capacidade dos reaccionários do exército português de fazer investidas contra nós, como no ataque à delegação da Vila Alice. Com a quantidade e potência das armas roubadas, o MPLA ficou mais preparado para responder. Os tugas ficaram apreensivos com as nossas acções, mas, a partir daí, tornaram-se mais aliados do que inimigos. Tudo graças ao nosso grupo especial do DIS, que eu comandava e que cumpriu inúmeras missões decisivas.

NS: Fala-nos alguma coisa sobre o 27 de Maio?

CB: Do 27 de Maio eu não posso falar porque, naquela altura, estava na União Soviética. Quando fui diretor da escola GICA, o senhor Bakalov não aceitava entrar em contacto comigo, só com o José Vandunen, que era o comissário.

NS: A missão de tirar Agostinho Neto da sua residência, como é que foi?

CB: Isso aconteceu por volta de 1975. O Presidente Agostinho Neto vivia no bairro do Saneamento, em Luanda. Fomos informados que a FNLA estava a preparar uma ação no palácio. Mas nós apercebemo-nos e, por volta das 20 horas, tiramos o Presidente Neto de lá. Por orientação do falecido Nzaji, pegamos no camarada Presidente mesmo na casa dele e levamo-lo diretamente para uma outra residência. Muitos dizem que foi no Futungo, mas eu nego! Posso negar! Não foi no Futungo! Havia uma casa perto de uma descida, onde há uma ponte… Do lado esquerdo tinha uma entrada com uma casa branca. Foi lá que levamos o Presidente Neto. Não foi no Futungo!

NS: Por que razão era sempre escolhido para missões especiais?

CB: Às vezes, até eu me perguntava. Porque éramos muitos, mas sempre que surgia uma missão dessas, chamavam-me. Um dia, perguntei ao ministro Iko Carreira: “Porquê eu? Somos tantos, mas só me escolhem a mim?” Ele respondeu: “Nós sabemos como você atua. Não podemos mandar outra pessoa, para não estragar a missão. Tem de ser você, porque você sempre cumpre as missões na íntegra!” Então eu disse: “Chefe! Eu cumpro as minhas missões na íntegra, mas um dia posso falhar! Posso morrer, porque isto é guerra.”

NS: Como é que era a composição, a estrutura e o comando das forças especiais da Kamuxiba?

CB: Éramos 25. Não éramos muitos. Dividíamo-nos em grupos, cada um com o seu chefe, e cada um tinha de cumprir a missão que eu dava: “Vão fazer isso!”, “Vão fazer aquilo!”. Depois, por volta das 17 ou 19 horas, cada um ia cumprir a sua missão.

NS: Recordação da estadia no Sudão. Valeu a pena o tempo que passou nas matas a lutar?

CB: Valeu muito, porque o meu objetivo era libertar o povo. Não era enriquecer-me! Ninguém pensava que um dia seria general. Ninguém! O objetivo era lutar para libertar o povo. Esse foi o propósito da luta, por isso não me arrependo. Ser pobre?… Não me arrependo! Porque eu sei que lutei. O povo está liberto e hoje somos independentes.

NS: Os objetivos da luta foram alcançados? Como está o país hoje?

CB: (Risos leves) Quer dizer… O objetivo da luta do MPLA não era aumentar o sofrimento do povo! Não! Era libertar… Por isso, quando ouço camaradas dizerem que este país “não presta”, eu digo: “Não! O país presta! O problema é a gestão!” É como numa casa: se o pai não souber gerir, tudo desmorona.

NS: Qual é a sua mensagem para o povo e para a direção do MPLA, onde sempre esteve?

CB: Epá! Por isso é que, às vezes, eu evito frequentar muito a direção do MPLA. A maioria são jovens e não nos conhecem. Gostaria que o camarada João Lourenço mudasse um pouco. Porque eu não aceito que um miúdo de 23 ou 25 anos seja membro do Bureau Político! Como é que eu vou respeitar esse camarada? O que é que ele sabe da história do MPLA? Nada! Então chega até mim e diz que é membro do Bureau Político? Eu digo: “Não! Camarada, desculpa lá, deram-te a função, mas comigo não!” O objetivo da luta não foi esse! O camarada João Lourenço tem de pensar mais e lutar mais pelo nosso povo.

Não digo pela minha situação, mas pela do povo. Porque eu vejo muito sofrimento… Outro dia, no Primeiro de Maio, um homem bem vestido veio ter comigo num semáforo e disse: “Senhor, desculpe, estou há três dias sem comer nada.” Mas estava bem vestido! Tirei 2.000 kwanzas e dei-lhe. Por coincidência, passou uma senhora a vender pão. Ele comprou pão e começou a comer ali mesmo, com fome. Eu não chorei, mas… O objetivo da luta não foi esse!

NS: Tem visto pessoas a comerem do lixo?

CB: Já vi. Coitadas. Vi uma senhora a tirar comida do lixo para dar às filhas. No tempo colonial, não se via isso! Eu estive em Luanda por pouco tempo naquela época, mas nunca vi isso!

NS: O sofrimento justifica a luta que passou na mata?

CB: Não justifica! Então eu fui lutar para ver uma mãe a tirar comida do lixo para dar às crianças? Não!

NS: O que está a faltar?

CB: Gestão. O nosso país está a ser mal gerido! Veja alguns generais, cheios de dinheiro! Dinheiro que dava para aliviar o sofrimento do povo! Mas foram comprando casas lá fora… enriqueceram-se!

NS: Tem coragem de chegar ao povo, dizer que esteve tanto tempo na mata, que é general e que lutou pela independência?

CB: Bem… Neste momento, posso dizer que não. A população conhece-me. Mas não posso fazer isso. Não posso! Como se diz em quimbundo: *”Mua mona mbua, mua fila ku muxima!” Ou seja: “Tudo o que o cão vê, não fala, mas guarda no coração.”

Que fazer? Lenine disse: ‘O que fazer?’

NS: Kiamuxinda sabe que é um espelho para mim e para nós, que o vimos chegar naquela altura mais jovem, com uma farda de Cabinda e um chapéu…? E que nos inspirou na luta pela libertação do país? Tem consciência disso?

CB: Tenho! Tenho plena consciência do que fiz e continuo a fazer. Se me chamarem para cumprir uma missão, eu vou! Sempre fui assim e sempre serei!

NS: O que aconteceu consigo na altura em que esteve na União Soviética? Concluiu o curso?

CB: Terminamos o curso. O que aconteceu comigo na União Soviética foi que o camarada Liberdade foi lá à procura dos envolvidos. Primeiro, ele perguntou na nossa República. Eu estudei em Odessa e, durante a reunião, perguntou: ‘Quem é o camarada Kiamuxinda?’ Ninguém respondeu, porque sabiam que eu estava envolvido. Nem o camarada Batalha de Angola, que era o nosso chefe, quis falar. Ele perguntou três vezes e ninguém se pronunciou.

Depois da reunião, fomos para o edifício e ele perguntou novamente ao camarada Batalha de Angola: ‘Kiamuxinda está mesmo aí?’ Ele me chamou. Fui até ele. Perguntou-me: ‘Chefe, tu…?’ Eu respondi que sou da segurança. E ele, baseado na pergunta, entendeu que, mesmo sem eu estar na lista, o chefe me colocaria lá. Expliquei que fui enviado pelo camarada Xietu e pelo camarada Iko Carreira, e que era o chefe de disciplina na União Soviética.

O chefe orientou que ele fosse a Moscovo, onde estava o outro grupo. Depois da reunião, tirou a lista e me chamou para conversar. No dia seguinte, levei o grupo ao aeroporto para apanhar o voo para Luanda.

NS: Mas isso foi depois do 27 de Maio. Fui acusado de fazer parte disso?

CB: Não. Eu não fui acusado. Mas, se estivesse em Luanda, teria sido morto, porque o comandante Monstro Imortal foi meu padrinho de casamento.

NS: Notava alguma tensão entre o Monstro Imortal e o 27 de Maio ou o fraccionismo? Ele tinha algum descontentamento?

CB: Eu… O Monstro Imortal era muito meu amigo, por isso o escolhi como padrinho de casamento, assim como a mulher dele, Luiza Inglês. Sempre fomos amigos, até nas matas.

E com outros comandantes, como o Xietu ou o Iko Carreira? Tive um problema com o Iko Carreira uma vez. Já estava cansado e fiquei sentado enquanto os outros se levantaram. Ele perguntou por que não me levantei, e eu disse que o chefe também tinha que me respeitar. Ele respondeu: ‘Sou teu tio.’ Eu então disse: ‘E eu sou teu sobrinho!’ A mãe dele era negra, então ele era meu sobrinho também. Depois, foi falar com o Presidente Neto, que me chamou. O Presidente disse: ‘Camarada Iko, o camarada Kiamuxinda é brincalhão, não há necessidade de desentendimentos.’ E o Iko respondeu: ‘Eu aceito, Camarada Presidente. Minha mãe é negra.’ (risos)

NS: Pode nos contar sobre a viagem que fez em busca de dois mercenários?

CB: Foi o comandante Nzaji que me deu a missão, em meados de 1975, para ir buscar dois mercenários em Malanje. Peguei o carro e fui. No Lucala, enquanto abastecia, encontrei o comandante Monstro Imortal. Ele perguntou para onde ia, e eu disse que estava a cumprir uma missão do Chefe do Estado-Maior. Ele respondeu: “Está bem!” e foi embora. Eu estava com um Vauxhall Viva, que era de um cônsul americano. Cheguei lá, pedi os mercenários ao comandante local, que me entregou os camaradas. Perguntaram se era preciso algemá-los, e eu disse que não. Voltei para Luanda, ao Morro da Luz, e apresentei os mercenários ao Chefe do Estado-Maior. Ele perguntou: “Vocês trouxeram esses homens sem algemas?” Um dos prisioneiros, que sabia um pouco de espanhol, comentou: “Esse camarada é muito bom.” Eles eram prisioneiros de combate em Malanje — um francês e um inglês, não os mesmos que estiveram no julgamento dos mercenários.

NS: Como vice-governador para a Defesa em várias províncias, qual foi a missão mais difícil que enfrentou?

CB: Participei em várias missões, mas a que mais me marcou foi quando o General Numa ocupou Kibaxe e recebeu (5) casas da JMPLA. O Governador Ventura de Azevedo mandou-me lá para ver a situação. Fui com (3) policiais. Kibaxe era fortaleza da UNITA. Quando cheguei no Kesso, já encontrei o controlo da UNITA: “Vai aonde?” “Vou a Kibaxe!”

Chegando lá, passei por outro controlo até ao quartel do General Numa. Encontrei o administrador local e disse-lhe que viera por causa das mensagens que ele tinha enviado e que o Governador me mandou para conversar com o General. Pedi-lhe para ir buscar o General. Ele voltou, mas o Numa não apareceu. Insisti e expliquei que fui nomeado pelo Presidente José Eduardo dos Santos.

Finalmente, o General apareceu. Conversámos bastante e depois convidei-o para almoçar na residência do administrador. Às 17h, disse ao administrador que ia embora. Na saída, mandei chamar o General e, ao falar com ele, mencionei que ia visitar uma tia e voltaria logo. Às 22h, estava de volta em Caxito.

Três dias depois, fui a Nambuangongo resolver outra situação. Depois de duas emboscadas no Morro da Cal, decidi pedir a minha demissão. Fui diretamente ao Governador e comuniquei a minha decisão. Ele pediu para informar o Primeiro-Ministro Marcolino Moco. Moco comunicou ao Presidente José Eduardo dos Santos, que me chamou e disse: “Vais sair de lá, mas vou tirar o Ventura de Azevedo e tu ficas no cargo.” Respondi que conhecia bem o povo de Caxito e que só tinha uma irmã sob a minha custódia. O Presidente aceitou a minha posição e agradeceu.

NS: Quem foram os seus pais e a sua irmandade?

CB: O meu pai era da missão protestante: Domingos José Belo. Em 1961… (suspira e olha para cima por alguns segundos) Esse homem faleceu em 1975, quando eu cheguei. Era o Aníbal quem era o comerciante lá na Vila Flor, na área de Kiangombe. Foram buscar o meu pai, diziam que ele falava com o Lumumba. Como pastor da missão protestante, ele falava com Lumumba, dizia o Aníbal. Então, o meu pai foi levado. Ele e o catequista dele, Gaspar Fernando. Eu também estava para ir. Cheguei a subir no carro para ir com o meu pai, porque eu era muito amigo dele. Mas os pulas disseram: “Ele é miúdo. Deixa ficar!” Então desci do carro. No dia seguinte, a minha madrasta foi lá e encontrou o sipaio que disse que esses homens foram queimados no forno de tijolos. O meu pai foi queimado no forno de tijolos. Os dois.

NS: O que aconteceu para que não ficasse na FNLA e procurasse o MPLA?

CB: Primeiro, aqui em Luanda, tinha algumas amizades com velhos. Eles contavam histórias sobre o MPLA. Então, fiquei com aquilo na mente. Porque a UPA, em termos de… Por isso até hoje tenho pena da FNLA, pela questão do tribalismo. Muitos quimbundos foram mortos pela FNLA. Quimbundos e Umbundos eram logo eliminados. Por isso estou a dizer que, se até hoje estou aqui, é porque Deus é grande. Porque, daquilo que a UPA era… Por isso é que tinha sempre na mente que precisava chegar a Brazzaville, porque Brazzaville era onde estava…

NS: Fale-me de sua irmandade.

CB: Marcos Domingos Manuel Belo é o primeiro irmão. Luzia Domingos Manuel Belo é a segunda. Eu sou o terceiro e o caçula da minha mãe. A Luzia faleceu há dois anos em Luanda, e o Marcos foi morto pela FNLA no Lucala. Ele já era, na época colonial, professor de posto. Quando o MPLA chegou, nomeou-o como ativista político no município do Lucala. Quando começaram as escaramuças, ele foi a Cacuso à procura de reforços. Ao voltar, uma senhora foi avisar à FNLA: “Olha, o fulano foi buscar reforços em Cacuso.” Então, a FNLA armou uma emboscada na ponte onde ele foi abatido.

NS: Fale-nos um pouco mais sobre o Plano Ferro.

CB: Quando fui nomeado Comandante do Plano Ferro, fui buscar as tropas e alguns oficiais no CIR Sangue do Povo, em 1978, logo após ter chegado da Rússia. Organizámos o primeiro comboio com 550 homens, mas só tínhamos 25 AKAs, RPK, PKM, morteiro 60 e RPG7. Os camaradas Iko Carreira e Xietu disseram-me: “Se o comboio não passar, não vale a pena vir aqui. Morre logo, assim não tens que dar explicações”. Partimos e organizámos o primeiro comboio do Lobito ao Luau. Passámos por algumas emboscadas menores e chegámos ao Luau, carregando 90 vagões de minério do Zaire. Dormimos no Cangumbe, porque não queria passar a noite no Luena.

Deixei uma secção em Cangonga para reconhecimento e, ao chegar lá, o chefe da secção disse-me que três camaradas tinham morrido numa emboscada de 1 quilómetro. Organizei a tropa, e ao entrarmos na emboscada, percebi que o comandante era o Kufuna Iembe, hoje meu grande amigo, mas na altura inimigo. A emboscada durou 45 minutos, mas conseguimos resistir e, após 15 minutos de fogo intenso, conseguimos seguir até o Lobito com toda a carga.

O Plano Ferro foi parte do restabelecimento das relações entre Angola e o Zaire (actual República Democrática do Congo). Fiz duas viagens: na primeira, fui atacado pelo Kufuna Iembe, e na segunda, por comandos da UNITA em Léua e Luacano. Mesmo assim, conseguimos levar os comboios até o Lobito.

NS: E saiu por quê?

CB: Saí porque, quando viram que estava a ganhar influência junto das estruturas superiores, alguns oficiais convenceram o camarada Iko Carreira a me transferir de escola, do Andulo para a Chissama. Três dias depois, disseram-me que passaria a depender da DIUE, mas eu recusei. Disse que não dependia da DIUE, pois quem me nomeou foi o comandante em chefe Agostinho Neto. Ofereci-me para entregar tudo e ir embora, se fosse necessário.

Então, enviaram uma comissão para me encontrar na Chissama. Apresentei os chefes e os departamentos, mas não conseguiram concluir o que queriam. O falecido Monimambo sugeriu que procurassem o Chefe da Unidade, e foi quando levei toda a documentação, que entreguei em 30 minutos. Tudo estava certo. Desci ao Lobito, preparei a minha família e fui para Luanda.

Dois meses depois, o camarada Iko Carreira chamou-me, dizendo que o comboio estava a ser atacado e que eu precisava voltar. Respondi que não voltaria, pois quem sai não volta, e o que os camaradas precisavam era atacar. O camarada Neto soube da situação e perguntou ao camarada Iko quem me tirou. Quando soube, disse: “Agora o comboio não anda mais”, e realmente, nunca mais andou até 2014, ou seja, 36 anos depois.

NS: Fale-me sobre a operação cancelada à última hora para fazer explodir o edifício central da FNLA em Luanda.

CB: (Risos) Eu era uma lesma. O Nzaji chama-me e diz: “Tens de fazer um reconhecimento com o teu grupo especial da Kamuxiba para destruir a base central da FNLA em Luanda.” Fizemos a avaliação e vimos que a melhor forma de derrotar a FNLA era destruir o edifício pelo túnel. Fomos três. Entramos no túnel e saímos na praia da Marginal, onde preparamos tudo.

Parece que o camarada Presidente Neto soube: “Chamem o Kiamuxinda rápido!” O Nzaji disse: “Chamaram-te, camarada Presidente.” Fui com o Nzaji. O Presidente Neto disse simplesmente: “Não façam isso. Tirem os explosivos.” Então, retiramos os explosivos que já estavam no túnel, perto da Casa do Povo da Avenida Brasil.

Já tínhamos tudo preparado, mas a prioridade era destruir a Casa do Povo da Avenida Brasil e não a de Catete, porque eu já tinha feito o reconhecimento da de Catete. Como falo lingala, podia ir lá, vestir o uniforme deles e conversar. Cheguei até a fazer refeições na base da FNLA para observar as armas pesadas que eles tinham. O comandante da base da Estrada de Catete era o Barreiro.

NS: Que alvoroço houve em Brazzaville por causa de uma rapariga entre dois comandantes proeminentes do MPLA?

CB: Foi uma grande confusão entre dois comandantes. Um estava fora e o outro foi namorar com a mulher dele. Quando o primeiro voltou, soube do que aconteceu e, em retaliação, fez o mesmo. A situação virou um caos. Entraram numa discussão violenta e quase destruíram o depósito de armamento. Tivemos que ser chamados para garantir a segurança, porque o armamento estava lá. Tudo isso por causa das mulheres… (risos)

NS: Que incidente quase aconteceu quando vieram do Sudão por causa de uma guerrilheira que abandonou um dos vossos companheiros para ficar com um membro da direção?

CB: Naquela altura, o MPLA estava em crise e havia problemas de alimentação. Um camarada, que estava na parte financeira, tinha possibilidades e conquistou a miúda, já que o parceiro dela estava no Sudão. Ela aceitou.

Quando voltámos do Sudão e passámos por Brazzaville, o nosso comandante disse ao guerrilheiro: “Tens uma dama aqui, vai vê-la.” O guerrilheiro chegou e viu a dama a preparar outro lugar para ele dormir. Perguntou: “O que se passa?” Ela respondeu: “Já não quero nada contigo.” O guerrilheiro aceitou e voltou.

Quando chegámos ao CIR Calunga, ele contou a história. Ficámos revoltados e decidimos agir, eu e o Yamussinde. Pegámos nos carros, mas alguém informou o camarada Presidente, que mandou o camarada para a Zâmbia. Quando chegámos a Dolisie, ele já não estava lá, porque a nossa intenção era abater o membro da direcção.

NS: Fale sobre a capacidade militar adquirida nos treinamentos no Sudão.

CB: Hum!… Os treinos no Sudão… Viemos completos, mas não em boas condições de saúde. Aqueles treinos eram muito intensos. Depois da nossa chegada, estava prevista a ida de mais 150 camaradas, mas o Agostinho Neto decidiu: ‘Não! Já não dá!’ Ele viu o que os outros passaram e cancelou a ida de mais ninguém.

O treino era assim: acordávamos às 3 da manhã, preparação até às 7h. Depois, banho, e às 8h, pequeno-almoço, comendo em pé. Formatura às 8h, seguida de exercícios até às 12h. Depois, 15 minutos para almoçar e mais exercícios. Às 20h, calçávamos as botas ao contrário: a bota esquerda no pé direito e vice-versa. A mochila tinha areia, que depois era molhada para endurecer durante a noite. Dormíamos só depois da meia-noite para acordar às 3h e recomeçar. Era uma carga pesada.

Nós ficámos misturados com os sudaneses. O curso era o mesmo para todos, com tradutores que falavam lingala, que eu entendo. A fronteira com o Zaire (actual RDC) também falava lingala, então nós traduziamos para os que não compreendiam. Dos 51, restaram apenas 24. Estão vivos o Chegará, Mwadiata e Ary da Costa. O Agostinho faleceu no ano passado. O Chegará perdeu uma perna devido ao diabetes, e o Yamussinde está difícil de localizar.

NS: Conta o episódio em que foste cumprir a missão de trazer um ministro do governo sob custódia ao Presidente Agostinho Neto.

CB: (Risos) Não tenho problema em falar disso. Ele saiu de Luanda, sem avisar o camarada Presidente Neto, e foi à sua terra natal. O camarada Presidente chamou o camarada Nzaje, que me ligou: “Epá! Há uma missão aí. O camarada Presidente te chamou. Vai só ao Futungo.”

Cheguei ao Futungo, o camarada Presidente disse: “Kiamuxinda, tu vais à Catete esperar pelo Ministro. Mas não o deixes ir para mais lado nenhum. Tu vens com ele. Está bem?”

Fui até à Catete, montei o controlo e esperei. Mais tarde, os batedores do Ministro chegaram e pediram para abrir o controlo. “Abre!” Fiquei surpreendido, mas não abri. “Está aí o Ministro, tu não conheces?” “O camarada Ministro não passa sem falar comigo primeiro!”

Cumprimentei o Ministro e disse: “Boa tarde, camarada Ministro. Vim a mando do camarada Presidente Agostinho Neto para te levar ao Futungo.” Ele respondeu: “Pois, sei que não me despedi, mas foi uma fugida rápida. Mas como é que o camarada vai dar uma fugida dessas?”

Subimos no carro dele até ao Futungo, e lá deixei-o com o Presidente. O que se passou depois é entre eles. Algum tempo depois, o Ministro foi exonerado.

Há dois anos, encontrei o Ministro. Ele disse: “Tu, Kiamuxinda, me meteste preso? Ó chefe, me mandaram e tive de cumprir!” Eu disse: “Mas chefe, não podes dar uma fugida dessas! A qualquer momento podiam precisar de ti.” E assim foi a nossa entrevista com Carlos Belo «Kiamuxinda». Muito obrigado.

Licença: Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)
Os conteúdos editoriais abrangidos por esta política podem ser republicados gratuitamente, desde que sejam respeitadas as condições de atribuição.

Artigos Relacionados