O empreendedor angolano Tomás Alberto defendeu a criação de alternativas nacionais em sectores estratégicos como combustíveis, telecomunicações e economia digital, considerando que os recentes episódios de escassez de combustível e de interrupção dos serviços da Unitel demonstram a vulnerabilidade do país perante a dependência de infraestruturas essenciais.

Numa carta pública dirigida ao Presidente da República, João Lourenço, Tomás Alberto sustenta que as dificuldades registadas recentemente devem servir de alerta para o Executivo reforçar a capacidade de resposta interna e reduzir vulnerabilidades em sectores considerados fundamentais para o funcionamento da economia.

Segundo o empreendedor, a falta de combustível tem impacto directo nos transportes, na actividade empresarial e na circulação de bens, enquanto a interrupção dos serviços de telecomunicações afecta cidadãos, empresas, comerciantes, instituições e diversas actividades económicas dependentes de comunicações e serviços digitais.

Para Tomás Alberto, a mesma lógica deve ser aplicada à economia digital, onde milhares de empresas e empreendedores angolanos recorrem diariamente a plataformas internacionais para publicidade, comunicação, comércio e promoção dos seus negócios.

Na sua análise, o empreendedor estima em cerca de 48,3 milhões de dólares anuais, equivalentes a aproximadamente 44,3 mil milhões de kwanzas, o fluxo financeiro associado às plataformas digitais internacionais analisadas. O valor, considera, representa também uma oportunidade para Angola avaliar quanto desse montante poderia permanecer na economia nacional através da criação de soluções tecnológicas desenvolvidas no país.

Tomás Alberto esclarece, contudo, que a proposta não passa pelo abandono das plataformas internacionais, mas pela criação de alternativas nacionais competitivas e complementares.

Jovens devem passar de consumidores a criadores de tecnologia

Na carta, o empreendedor destaca ainda o potencial da nova geração de angolanos, defendendo a criação de condições para que os jovens deixem de ser apenas consumidores de tecnologias desenvolvidas no exterior e passem também a criar soluções destinadas ao mercado nacional e, posteriormente, a outros países africanos.

“Angola possui uma geração jovem que não quer apenas procurar emprego. Quer criar empresas, desenvolver tecnologia, criar plataformas, prestar serviços ao Estado e ao sector privado e participar na construção da economia nacional”, sustenta.

Para Tomás Alberto, o desafio passa por transformar essa vontade numa capacidade produtiva, através de políticas que estimulem o empreendedorismo tecnológico, a inovação e o desenvolvimento de empresas nacionais.

O empreendedor considera que os recentes problemas registados no fornecimento de combustível e nas telecomunicações demonstram que o país não deve esperar por novas crises para começar a construir alternativas.

“Soberania significa possuir capacidade de resposta. Significa ter alternativas. Significa reduzir vulnerabilidades. Significa preparar o país antes da crise”, defende.

Proposta de Plano Nacional de Mitigação da Dependência Digital

Como resposta, Tomás Alberto propõe ao Presidente da República a criação de um Plano Nacional de Mitigação da Dependência Digital, associado ao reforço das infraestruturas tecnológicas nacionais e ao incentivo às empresas angolanas do sector.

Na perspectiva apresentada, uma maior participação de empresas nacionais no fornecimento de soluções tecnológicas permitiria que parte do valor actualmente pago por serviços externos permanecesse no país, contribuindo para a criação de empresas, empregos qualificados, inovação, receitas fiscais e retenção de divisas.

O empreendedor defende ainda uma estratégia mais ampla de desenvolvimento de capacidades nacionais nos sectores considerados estratégicos.

“Na energia, precisamos de refinar mais. Na agricultura, precisamos de produzir mais. Na indústria, precisamos de transformar mais. E na tecnologia, precisamos de criar mais”, afirma.

Tomás Alberto rejeita uma perspectiva de isolamento económico e tecnológico, defendendo, pelo contrário, uma maior preparação de Angola para competir num mundo globalizado.

“Angola não precisa fechar-se ao mundo. Precisa estar preparada para o mundo”, escreve, defendendo que o país deve continuar a utilizar tecnologias estrangeiras enquanto desenvolve progressivamente capacidade própria para produzir soluções que já estejam ao seu alcance.

A carta termina com um apelo para que o Executivo avance na criação dessas alternativas antes que uma nova crise volte a expor as vulnerabilidades do país.

Fonte: Club-k.net