A competitividade da indústria em Angola continua condicionada por um conjunto de factores estruturais que limitam a capacidade de produção nacional em termos de preço, qualidade, regularidade e escala, segundo análise do economista Verdím Pandieira.
De acordo com o especialista, apesar de o país dispor de capacidade instalada, espaço industrial e um mercado em crescimento, persistem constrangimentos que impedem a consolidação de uma indústria transformadora robusta e competitiva.
Dados recentes indicam que, em 2024, a indústria transformadora representou apenas 5,2% do Produto Interno Bruto (PIB), valor inferior ao registado em economias como África do Sul (12,8%), Marrocos (15,3%) e Brasil (12,1%), bem como abaixo da média mundial, estimada em cerca de 15%.
No que se refere às exportações, os produtos manufacturados representam apenas 1,1% do total das mercadorias exportadas por Angola, evidenciando a reduzida inserção do país nas cadeias de valor regionais e globais.
Entre os principais factores limitadores, destaca-se a insuficiência e o custo da energia eléctrica, considerada essencial para garantir a continuidade da produção e a redução dos custos operacionais. O acesso à electricidade no país situava-se em 51,1% da população em 2023, número inferior ao de várias economias comparáveis.
Outro constrangimento apontado é o elevado custo do financiamento e a dificuldade de acesso ao crédito produtivo, que limita a capacidade das empresas de investir, expandir e modernizar os seus processos produtivos.
A análise refere igualmente a baixa escala de produção como um entrave à competitividade, uma vez que muitas unidades industriais operam abaixo do seu potencial, o que eleva os custos unitários e reduz a capacidade de concorrência face aos produtos importados.
A fragilidade logística e os elevados custos de transporte e distribuição constituem também obstáculos relevantes, afectando a eficiência da cadeia produtiva desde a aquisição de matérias-primas até à entrega do produto final ao consumidor.
O economista destaca ainda a fraca integração das cadeias de valor, a insuficiente qualificação técnico-profissional da mão-de-obra e a baixa intensidade tecnológica do tecido produtivo como factores que comprometem a produtividade e a inovação no sector industrial.
A burocracia económica e os custos administrativos de contexto, associados a processos de licenciamento e regulação, são igualmente apontados como elementos que dificultam o ambiente de negócios e atrasam o investimento.
No plano da comercialização, a qualidade da embalagem, certificação e apresentação dos produtos nacionais continua a ser um desafio, influenciando a percepção do consumidor e a competitividade no mercado.
Por outro lado, a fraca vocação exportadora da indústria transformadora limita a expansão das empresas, reduzindo a sua exposição a padrões internacionais de qualidade e inovação.
Apesar destes constrangimentos, o analista reconhece os esforços do Executivo na melhoria das infra-estruturas e no apoio à produção nacional, com destaque para projectos como o Corredor do Lobito, a Zona Económica Especial Luanda-Bengo e a Zona Franca da Barra do Dande, bem como iniciativas de estímulo à economia produtiva.
Em síntese, o especialista considera que a competitividade industrial em Angola depende da redução dos custos de contexto e da transformação dos investimentos em infra-estrutura em ganhos efectivos de produtividade.
O desafio, sublinha, passa por tornar os produtos nacionais mais competitivos em preço, qualidade e regularidade, de modo a conquistar maior espaço no mercado interno e afirmar-se nos mercados regionais e internacionais.
