Críticas às alterações das paragens de táxi e ao ordenamento do trânsito em Luanda – Dário de Castro

As recentes alterações nas paragens de táxi em Luanda, no âmbito das medidas de ordenamento do trânsito, têm levantado preocupações entre passageiros, taxistas e outros intervenientes na mobilidade urbana.

Com preocupação, manifesto a minha discordância em relação à forma como algumas dessas medidas têm sido implementadas, sobretudo quando a alteração dos pontos de embarque e desembarque acaba por criar novos constrangimentos para quem depende diariamente dos transportes públicos.

Reconheço que a organização do trânsito e o reforço da segurança rodoviária são necessários. No entanto, considero que as medidas adoptadas devem igualmente ter em conta a realidade dos passageiros e dos taxistas.

Segurança rodoviária e mobilidade

Uma das principais questões está relacionada com a localização de algumas paragens de táxi e a distância em relação às passagens pedonais.

Se o objectivo das autoridades é incentivar os peões a utilizarem as passagens pedonais e reduzir o risco de atropelamentos, as paragens devem ser localizadas de forma a facilitar esse comportamento.

Não basta retirar uma paragem de determinado ponto. É necessário garantir que o novo local seja acessível, seguro e funcional para os passageiros.

Em determinadas situações, a distância entre a paragem e a passagem pedonal pode representar um constrangimento para quem utiliza diariamente os transportes públicos.

Por exemplo, quando um passageiro é obrigado a percorrer uma distância adicional depois de atravessar pela passagem pedonal, o percurso pode tornar-se menos conveniente. Por isso, é importante que as autoridades avaliem não apenas a circulação dos veículos, mas também o percurso que os peões são obrigados a fazer.

O objectivo deve ser encontrar soluções que incentivem os cidadãos a utilizar as passagens pedonais, evitando criar dificuldades que possam levar alguns peões a procurar alternativas menos seguras.

Constrangimentos em diferentes zonas

Esta preocupação não se limita a uma única zona de Luanda. Situações semelhantes são sentidas em diferentes trajectos e pontos de embarque e desembarque utilizados diariamente pelos passageiros.

Um exemplo é o percurso no descido do Zango, com as paragens do MDC, Engevia, Mutamba e 11 de Novembro. Nestas zonas, a localização dos pontos de embarque e desembarque deve ser analisada tendo em conta não apenas a circulação automóvel, mas também as necessidades de quem utiliza diariamente esses transportes.

O mesmo acontece em trajectos como Escongolenses–1.º de Maio e Escongolenses–Vila de Viana, entre outros pontos de Luanda, onde a definição das paragens deve procurar responder às necessidades reais dos passageiros.

As preocupações estendem-se igualmente às imediações da nova ponte do AngoMart, no sentido contrário à entrada da Guarda-Passagem, à zona da Vila de Viana e a outros pontos da cidade.

Em alguns destes locais, passageiros que anteriormente conseguiam apanhar ou sair dos táxis com maior facilidade passaram a enfrentar dificuldades na sequência da alteração dos pontos de embarque e desembarque.

A questão merece atenção porque uma paragem de táxi não deve ser analisada apenas em função da circulação automóvel. É igualmente necessário considerar o acesso dos passageiros, a segurança dos peões e a facilidade de deslocação.

Uma cidade organizada não é apenas aquela onde os veículos circulam melhor. É também aquela onde os cidadãos conseguem deslocar-se com segurança e chegar aos transportes públicos sem enfrentar obstáculos desnecessários.

Taxistas defendem maior participação

No dia 25 de Agosto, o presidente da Cooperativa de Taxistas e Motociclistas Freitas (CTMF), Manuel Freitas, manifestou preocupação com as constantes alterações das paragens em Luanda.

Durante um workshop sobre o serviço de táxi em Luanda, o responsável defendeu uma maior participação das associações e cooperativas na definição dos pontos de embarque e desembarque.

Entre os casos apontados esteve a alteração da paragem da Vila de Viana, que, segundo Manuel Freitas, terá provocado constrangimentos aos taxistas e passageiros por ter sido implementada sem consulta prévia às associações e cooperativas.

A participação dos operadores do sector pode ser importante para identificar antecipadamente os possíveis problemas e contribuir para soluções mais ajustadas à realidade dos transportes públicos.

Alterações justificadas pelo ordenamento do trânsito

As mudanças nas paragens também estão relacionadas com medidas de ordenamento do trânsito adoptadas pelas autoridades.

Em Fevereiro deste ano, a Direcção Municipal do Transporte, Tráfego e Mobilidade de Viana anunciou que as paragens das Bombas dos Mutilados e da Ponte Amarela deixariam de funcionar como pontos de embarque e desembarque, devido aos constrangimentos provocados à circulação na Estrada Nacional 230, no sentido Luanda/Viana.

Na altura, foram indicados novos pontos de embarque e desembarque nas proximidades da Igreja Católica e do Hospital da Doença do Sono, através da Avenida Hoji-ya-Henda, conhecida como Rua dos Bombeiros.

As autoridades anunciaram igualmente trabalhos de sinalização e acções de sensibilização junto dos transeuntes e vendedores que continuavam a atravessar a estrada por baixo das passagens pedonais.

A preocupação com a circulação rodoviária é legítima. Contudo, qualquer alteração desta natureza deve ser acompanhada por alternativas que garantam aos passageiros condições adequadas de acesso aos transportes.

Necessidade de maior diálogo

Considero que as medidas de ordenamento do trânsito devem resultar de uma análise que tenha em conta todos os intervenientes.

As autoridades têm a responsabilidade de organizar a circulação e garantir a segurança rodoviária, mas os taxistas e passageiros vivem diariamente a realidade das ruas e podem contribuir com informações importantes sobre os efeitos práticos das decisões tomadas.

Por isso, sempre que uma paragem é retirada ou transferida, deve existir uma alternativa devidamente sinalizada, acessível e segura.

Também seria importante reforçar o diálogo com as associações e cooperativas de taxistas, bem como considerar as dificuldades enfrentadas pelos passageiros.

Antes de implementar alterações que afectam directamente milhares de pessoas, é importante avaliar o percurso completo do passageiro: onde entra no táxi, onde desembarca, onde está localizada a passagem pedonal e qual a distância que terá de percorrer até ao seu destino.

Esse exercício pode ajudar a identificar problemas que, vistos apenas do ponto de vista da circulação automóvel, podem passar despercebidos.

Segurança e mobilidade devem caminhar juntas

A organização do trânsito é necessária, mas a segurança rodoviária e a mobilidade dos cidadãos não devem ser tratadas como questões separadas.

Uma medida pode ser correcta no seu propósito e, ainda assim, precisar de ajustes na sua implementação.

É neste ponto que deve estar o debate: como organizar melhor o trânsito de Luanda sem criar novos obstáculos para quem depende dos transportes públicos?

A solução passa por medidas que garantam a circulação dos veículos, protejam os peões e, ao mesmo tempo, assegurem que os passageiros tenham acesso fácil e seguro aos locais de embarque e desembarque.

Mais do que simplesmente mudar paragens, é necessário planear, sinalizar, informar e ouvir os principais intervenientes.

Luanda precisa de um sistema de transporte mais organizado e seguro. Para que isso aconteça, as decisões devem procurar conciliar a necessidade de ordenar o trânsito com a realidade de quem, todos os dias, utiliza as ruas e os transportes da cidade.

Por Dário de Castro, Estudante de Comunicação Social e membro da sociedade civil

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