PELO MENOS EU O AVISEI…
O jovem Zito Luvumbo, após ter realizado uma excelente exibição numa partida que terminou com a vitória da sua equipa, o Maiorca, sobre o poderoso Real Madrid por 2-1, na 30.ª jornada da La Liga 2025/26, disputada no dia 4 de abril de 2026, no Estádio Son Moix, viveu um dos momentos mais marcantes da sua carreira.
Horas depois, ainda envolvido naquele ambiente de euforia e emoção, publicou nas suas redes sociais a expressão: “PAU NÃO SE EXPLICA“. Em muitos contextos, esta frase é interpretada como uma provocação, sobretudo por quem vê a sua equipa sair derrotada.
Lembro-me de que, naquele mesmo instante, como adepto da equipa derrotada, respondi através de um comentário,
cujo Print Screen guardei até hoje. Nele, deixei o seguinte aviso:
“Guarda bem este ‘pau’. Porque, quando caírem para a Segunda Divisão, vais entender o verdadeiro significado do ‘pau’, mesmo sem qualquer explicação.”
Apesar do tempo se ter encarregado de dar outro sentido e significado àquelas palavras, na verdade eu já previa que a inesperada queda para a Segunda Divisão poderia acontecer.
Como?
Na altura, as minhas palavras foram encaradas apenas como uma reação de um adepto inconformado com a derrota, e não como algo rancoroso ou maldoso. Também as minhas palavras serviram para transmitir-lhe uma lição:
“Às vezes, na vida, devemos aprender a manter o fair play, o respeito e a empatia perante os fracassos, as dores e as derrotas dos outros.”
O MISTÉRIO OCULTO POR TRÁS DOS FUTEBOLISTAS ANGOLANOS
Como referi anteriormente, eu já previa ou suspeitava da possível despromoção por um simples motivo:
O MISTÉRIO OCULTO POR TRÁS DOS FUTEBOLISTAS ANGOLANOS!
Ou seja, o Zito Luvumbo também parecia ser mais uma das vítimas hereditárias de um mistério oculto que sempre desconfiei existir por detrás da carreira dos futebolistas angolanos.
Observem que quando fiz aquele comentário, faltavam oito (8) jornadas para o fim da La Liga, e o Maiorca tinha tudo para garantir a sua permanência, pois havia acabado de conquistar três preciosos pontos diante do Real Madrid, o adversário mais difícil, ficando dois pontos acima dos três últimos classificados, que ocupavam a zona de despromoção.
Mas aconteceu o inesperado.
No entanto, recuando à trajetória da transferência do Zito Luvumbo, assim que saiu do Cagliari, em Itália, e chegou a Espanha, após a sua contratação, sinceramente, como referi anteriormente, eu já desconfiava e pensei comigo mesmo:
“Hummm! Que azar para o Maiorca…”
Ou seja, já previa que a sua equipa acabaria por cair de divisão, enquanto o Cagliari, com a saída dele, permaneceria na elite da Série A do futebol italiano.
No mesmo dia, abordei este assunto com os meus amigos Elson Pataca, Jaime Tenda e Lourenço Prata. Eles são testemunhas e podem confirmar isso hoje, embora, naquela altura, também tenham duvidado das minhas palavras.
Recentemente, apercebi-me, não por fonte oficial do clube, mas da pretensão do Maiorca em querer manter o jovem Luvumbo no plantel, para competir na 2.ª Divisão…
My God… Que maldição!
Outros casos que reforçam esta teoria
Mbala Zola
O mesmo facto aconteceu com o atacante angolano Mbala Zola. Depois de terminar uma excelente temporada 2024/25 na equipa do Lens, na Ligue 1 (França), foi emprestado ao Pisa, uma equipa italiana que havia sido promovida à 1.ª Divisão, após uma excelente campanha na Série B, que lhe garantiu a subida à Série A.
Mas, com a chegada do avançado angolano, infelizmente, a equipa do Pisa não conseguiu adaptar-se ao nível da 1.ª Divisão e terminou a época no 20.º lugar (último), sendo despromovida para a Segunda Divisão.
Que maldição!
Mateus Galiano
De igual modo, também aconteceu com o avançado Mateus Galiano, após a sua transferência do F.C. Lixa para o Gil Vicente F.C., no ano 2006.
Logo na chegada, o seu nome ficou ligado ao famoso “Caso Mateus”, relacionado com a sua inscrição no Gil Vicente.
O processo acabou por resultar na despromoção administrativa do clube para a segunda divisão (Que azar!).
No ano seguinte, em 2007, Mateus transferiu-se para o Boavista F.C., que estava há 53 anos na primeira divisão.
Após a sua chegada teve excelentes exibições, mas infelizmente, no final da temporada 2007/08, o Boavista sofreu uma despromoção administrativa para a segunda divisão, devido ao processo Apito Dourado.
Que maldição!
Uma “maldição hereditária”?
Lamentavelmente, esta realidade parece ser uma verdadeira “maldição hereditária” que acompanha cerca de 90% dos jogadores angolanos que seguem para a Europa.
Parece que os nossos jovens estão destinados apenas a jogar em equipas da Segunda Divisão ou em clubes que lutam para não descer de divisão. E, na maioria das vezes, acabam mesmo por cair para a segundona.
Esta realidade vem desde o tempo dos nossos grandes nomes do futebol angolano, verdadeiras lendas do passado, como Abel Campos, Jesus, Saavedra, Quinzinho, Akwa, entre outros.
Por outro lado, um dos casos que mais me chamou a atenção é o facto de sempre ter sido muito difícil encontrar um jogador angolano a atuar como titular indiscutível ou de forma consistente num dos quatro principais clubes de cada campeonato europeu.
Podem até começar nesses grandes clubes, principalmente em Portugal, mas, em pouco tempo, frequentemente acabam por ser emprestados, dispensados ou contratados por equipas que estão prestes a ser despromovidas.
Também era notório, nos anos 90 e no início dos anos 2000, que muitos dos jogadores convocados pelos selecionadores Carlos Alhinho e Professor Neca para representar Angola no CAN de 1996, no CAN de 1998 e noutras competições vinham de realidades muito distintas.
Alguns eram suplentes em clubes da Primeira Divisão, outros jogavam até na Segunda Divisão B, enquanto os restantes eram titulares no Girabola, o campeonato nacional.
Inclusive, em 2005 e 2006, durante a era do Professor Oliveira Gonçalves, alguns jogadores chegaram a ser convocados para a Copa do Mundo sem sequer terem clube.
Parecia até uma praga lançada sobre os jogadores e sobre o futebol angolano.
Por isso, sempre fiquei na dúvida:
- Será que é mesmo uma maldição?
- Será que existe uma maldição para quem usa a Camisola da Selecção?
- Ou será que Angola nunca teve, de facto, jogadores verdadeiramente diferenciados (Cracks), capazes de
competir ao mais alto nível internacional?
Sinceramente, prefiro acreditar que existe um pouco de cada uma dessas hipóteses.
Por um lado, desconfio que possa existir, de facto, uma espécie de “maldição” que persegue tanto aqueles que nasceram, cresceram e se assumem como angolanos, seja no país como na diáspora, principalmente quando decidem vestir a CAMISOLA DA SELECÇÃO NACIONAL.
Este é, aliás, outro assunto que merece ser desmistificado: o azar que parece acompanhar muitos jogadores angolanos depois de envergarem a camisola da Selecção.
Porque não é normal.
É algo que venho observando há mais de 20 anos.
Parece ser muito estranho.
Observem que um filho de angolanos pode até nascer, crescer e revelar um enorme talento futebolístico na Europa.
No entanto, basta assumir-se como futebolista angolano e aceitar, um dia, representar e vestir as cores da camisola do solo pátrio e, aparentemente, começa a misteriosa e maldita perseguição do azar dos diabos na sua carreira futebolística.
Caso haja dúvidas, gostaria que alguém mencionasse, no mínimo, cinco jogadores angolanos que, nos últimos 30 anos, após estrearem-se pela Selecção Nacional, tenham conseguido manter uma carreira brilhante e bem-sucedida durante três ou mais temporadas consecutivas, num elevado nível de rendimento em grandes clubes europeus.
Ora vejam: garanto, com toda a certeza, que jogadores como Eduardo Camavinga, Blaise Matuidi e outros filhos de angolanos, nascidos e criados na diáspora, jamais chegariam onde chegaram, em grandes clubes da Europa, como o Real Madrid e a Juventus, nem teriam os seus nomes mundialmente conhecidos se, porventura, no início das suas carreiras profissionais, tivessem decidido ou assumido a condição de futebolistas angolanos e aceitado representar e vestir a camisola da Selecção Nacional de Angola.
Eu duvido que atingiriam tais palmarés de sucesso.
Pedro Mantorras
Podemos até mencionar o grande nome de Pedro Mantorras, que teve um início brilhante e bem-sucedido na sua carreira após a sua estreia com a camisola da Selecção Nacional.
No entanto, pouco tempo depois, surgiu o azar de uma lesão que, no princípio, parecia menos grave, mas que com o tempo foi-se agravando, embora tenham surgido suspeitas e acusações relativamente à possibilidade de existirem falhas médicas no tratamento da sua lesão, sem que houvesse provas públicas definitivas de erro médico.
Mas, do meu ponto de vista, infelizmente, Mantorras foi mais uma vítima desta possível “maldição”.
Pois não é normal ver toda aquela geração de ouro dos Mantorras e Mendonça, campeões africanos de Sub-20, que na final da competição confrontaram a geração de ouro ganesa de Michael Essien, D. Boateng e Sulley Muntari, bem como a geração de jovens argentinos como Javier Saviola e Maxi Rodríguez, tanto na competição africana das nações (CAN) Sub-20 como no Mundial Sub-20 (2001).
Após o término das duas competições, basta pesquisarem e verão em que clubes os nossos jogadores foram parar e em que clubes os jovens ganeses e argentinos foram evoluir e brilhar nas suas carreiras.
António Mendonça
Em suma, o jogador António Mendonça, que foi eleito o melhor jogador da competição do CAN Sub-20, voltou a jogar em Portugal, ajudando o Varzim SC a permanecer na 1.ª Divisão.
Já Pedro Mantorras, apontado por muitos como o mais talentoso, foi transferido para o SL Benfica numa época em que a sua equipa, o FC Alverca, lutava para permanecer na 1.ª Divisão, embora, na temporada seguinte (2001/02), o Alverca tenha mesmo caído para a 2.ª divisão.
Que maldição!
Ricardo Job
Passados cerca de 10 anos da geração de ouro, surgiram vários jovens talentosos no futebol nacional, com destaque para Ricardo Job, que na época foi apelidado pela média desportiva de “Menino Maravilha”.
Nos anos de 2011, embora não tivesse sido tornado oficialmente público, já existiam relatos de que o SL Benfica acompanhava a sua evolução e tinha demonstrado interesse no jogador.
Ainda assim, desconfio que, após ter usado a camisola da Selecção, infelizmente, a carreira do nosso talentoso “Menino Maravilha”, com todo aquele brilho, não foi para a Europa e terminou em casa, no Girabola, o campeonato nacional.
Que maldição!
Benson Manuel
De igual modo, aconteceu recentemente com o jovem Benson Manuel, que se destacou no futebol inglês após assinar pelo Burnley FC na temporada 2022/23.
Foi uma das principais figuras da equipa que conquistou o título do Championship, marcou mais de 13 golos e garantiu a subida da sua equipa da segunda divisão para a Premier League.
Era considerado um dos jogadores-chave do Burnley no campeonato principal de Inglaterra.
Depois foi convocado para a Selecção Nacional e jogou algumas partidas.
Há quem diga, de forma figurativa, que alguns, com “olhos espirituais”, chegaram a ver uma imagem do Messi a brilhar no Benson.
Mas, depois de envergar a camisola da Selecção na sua estreia, hummm…
Infelizmente, já não era o mesmo.
A equipa dele voltou a cair novamente para a 2.ª divisão e transferiu-se da Europa para o Maccabi Haifa, da primeira divisão de Israel.
Que maldição!
O problema será também a qualidade do nosso futebol?
Por outro lado, como referi anteriormente, também desconfio que Angola não produz tantos talentos ou craques como gostaríamos de ver a brilhar na Europa.
O futebol que produzimos, ensinamos e praticamos localmente, na minha opinião, parece ser uma falsa realidade ou uma ilusão.
É muito diferente daquele que se espera ou se pratica nos principais campeonatos europeus.
Salvo algumas exceções, o nosso futebol enquadra-se num estilo de jogo mais comum em muitos países africanos.
Por isso, alguns jogadores conseguem atuar e destacar-se nos campeonatos africanos, como, por exemplo, o grande Flávio Amado, entre outros.
No entanto, há também jogadores que nem a nível dos campeonatos africanos conseguem impor-se.
O caso Gilberto “Gibele”
De realçar que, um dia, alguém me disse:
“Finalmente, o Petro de Luanda lançou um jovem craque e muito talentoso chamado Gilberto ‘Gibele’.”
Quando ouvi isso e vi o jogador atuar, encantando adeptos e comentadores, questionei-me:
“Será que os nossos analistas, adeptos e amantes do desporto em Angola acompanham regularmente os campeonatos europeus, especialmente a Premier League?”
Porque, sinceramente, quando vi o futebol praticado por Gibele pela primeira vez, pensei e disse imediatamente:
“Esse tipo de futebol não se joga ao mais alto nível na Europa.”
Muitos duvidaram das minhas palavras.
Mas o tempo acabou por confirmar aquilo que eu dizia, quando ele regressou ao Petro de Luanda por empréstimo, vindo do Orlando Pirates, depois de não ter tido os resultados esperados, pouca produtividade, poucos minutos de utilização e de não conseguir afirmar-se na África do Sul.
Ou seja, se nem em África alguns conseguem impor-se de forma consistente, quanto mais na Europa?
Talvez seja por esses e outros fatores místicos que já referimos que, a princípio, fazem com que muitos dos nossos jovens encontrem dificuldades para se adaptar e afirmar nos grandes clubes europeus.
O desafio
Sinceramente, peço desculpa por expressar estas opiniões de forma irónica, mas gostaria que alguém me convencesse do contrário, desde que consiga mencionar, pelo menos, cinco (5) jogadores angolanos que, nos últimos 20 anos, tenham conseguido afirmar-se ou tenham sido titulares regulares nos quatro principais clubes dos seis principais campeonatos europeus (Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha, França e Portugal).
Ou então, que alguém consiga mencionar apenas cinco (5) jogadores angolanos que, nos últimos 15 anos, tenham estado regularmente no onze inicial ou, pelo menos, no banco de suplentes dos seus clubes em jogos da UEFA Champions League.
Salvo o jovem Milson, que, após cinco anos, voltou a dar-nos algum orgulho e a tirar a vergonha dos adeptos angolanos, quando saiu do banco de suplentes, entrou em campo e marcou um golo contra o Barcelona.
Pouco tempo depois, coitado do filho alheio, mais uma vez, por ser vítima desta suposta maldição, acabou por ser emprestado ao Al Jazira.
Eu pensava que Al Jazeera era apenas um famoso canal de televisão árabe.
Afinal, também é o nome de um clube.
Que maldição!
Reflexão final
Por mais que apontemos fatores como a barreira linguística, a falta de acompanhamento profissional, a escassez de agentes, olheiros, projetos de desenvolvimento, investimento e apoio institucional ao futebol nacional, continuo a acreditar que existe algo místico que impede muitos dos nossos jogadores de atingirem o seu verdadeiro potencial.
Por mais que apontemos as falhas, as corrupções e as incompetências dos dirigentes da FAF, bem como as interferências dos governantes, dos generais do exército e as más decisões administrativas nos assuntos desportivos, continuo a acreditar na possibilidade da existência de algo místico que impede muitos dos nossos jogadores de atingirem o seu verdadeiro potencial.
Por mais que apontemos que a maioria dos nossos jogadores revela falta de comprometimento, disciplina, responsabilidade, competitividade, criatividade e confiança, e que outros demonstram uma mentalidade marcada por um sentimento de inferioridade e dificuldades em acreditar que podem competir ao mesmo nível dos melhores, continuo a preferir acreditar na possibilidade de existir um mistério oculto que impede o desenvolvimento de tudo e de todos no futebol.
Por isso, considero importante refletirmos sobre estas questões, caso exista uma possível e suposta “maldição” ou “azar na camisola da selecção”, para que possamos quebrá-la.
Pois não é normal um país passar cinco ou dez anos sem ver um dos seus filhos, ou um jogador angolano, atingir uma fase avançada da UEFA Champions League, enquanto a maioria dos restantes continua apenas a lutar para evitar a descida de divisão ou a ser sucessivamente emprestada a clubes de menor expressão.
Após esta longa narrativa, a questão permanece:
A maldição do futebol angolano é mito ou realidade?
By: Mupess
